quarta, 15 de julho de 2026
16/07/2026 07:00

Ilusão da renda extra alimenta o avanço das bets, avalia professor da Univali

Fatores econômicos e popularização de plataformas digitais transformaram apostas em falsa saída financeira

A crença de que as apostas esportivas podem complementar a renda é um dos fatores que ajudam a explicar a rápida expansão das bets no Brasil. Para o professor de Economia e Relações Internacionais da Univali, Daniel Corrêa da Silva, a combinação entre perda de poder de compra, frustração econômica e forte exposição à publicidade tem levado cada vez mais brasileiros a enxergar nos jogos uma alternativa de ascensão financeira, embora essa percepção não encontre respaldo na economia.
 
“O ponto de vista econômico não faz nenhum sentido, porque as bets não são um tipo de investimento seguro que você possa usar como complemento de renda. As bets representam objetivamente um jogo de azar”, afirma o professor.
Segundo ele, essa mudança de percepção está diretamente relacionada ao contexto vivido pelas famílias brasileiras na última década. O baixo crescimento da economia, aliado ao aumento do custo de vida e à necessidade de ampliar a jornada de trabalho para manter o orçamento doméstico, criou um ambiente favorável à busca por soluções imediatas para melhorar a condição financeira.
 
“Esse desalento, essa desesperança, acaba tornando as pessoas muito mais suscetíveis a alguma possibilidade mágica, algum atalho, alguma solução imediata para muitos dos seus problemas”, analisa.
Corrêa da Silva explica que a digitalização das apostas potencializou esse comportamento. Com aplicativos disponíveis a qualquer momento e campanhas publicitárias cada vez mais presentes no cotidiano, apostar tornou-se uma prática simples e constante.
 
“Ao alcance da mão, basta pegar o celular e abrir um aplicativo. Muita gente introjetou a ideia de que isso poderia ser um complemento de renda, poderia ser um investimento, algo que pode ser recuperado no longo prazo, o que economicamente não faz sentido”, diz.
Na avaliação do economista, essa lógica também ajuda a explicar o aumento do endividamento associado às apostas. Ele cita levantamentos do Ministério da Fazenda que identificaram, por meio do programa Desenrola Brasil, um número expressivo de brasileiros endividados em razão dos jogos digitais.
 
“Quando observamos os dados do próprio Ministério da Fazenda, vemos o quanto temos um hiperendividamento nas famílias brasileiras e o quanto uma parte muito expressiva dos brasileiros estava se endividando especificamente nos jogos digitais, como as bets”, destaca.
Além dos impactos sobre o orçamento das famílias, o professor chama atenção para o modelo de negócios das plataformas de apostas. Segundo ele, trata-se de uma atividade altamente rentável para as empresas, mas com reduzido impacto na geração de emprego e renda no país, o que reforça a diferença entre as bets e atividades produtivas da economia.
 
Para o professor, o crescimento das apostas online revela mais do que uma mudança de hábitos de consumo. É um reflexo das dificuldades econômicas enfrentadas por parcela significativa da população e da disseminação da ideia de que o jogo pode representar uma saída para problemas financeiros.
 
“As pessoas passaram a acreditar que, só dessa vez, vão conseguir. Hoje estou com sorte, hoje aconteceu alguma coisa boa, então vou apostar. Essa expectativa de retorno acaba sendo alimentada pela facilidade de acesso e pela publicidade, mas não encontra fundamento econômico”, conclui.
 



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