
A movimentação voltou a Itajaí, mas restrições de profundidade, redução de cargas e omissões de escalas mostram que recuperar o terminal não significou resolver os problemas estruturais do complexo portuário.
A retomada do Porto de Itajaí virou argumento político e eleitoral. É fato que houve participação do Governo Federal, da administração portuária, dos órgãos reguladores e articulação política para que as operações fossem recuperadas. Mas atribuir esse resultado exclusivamente à política ignora parte importante da história.
Após a saída da APM Terminals, Itajaí atravessou um longo período praticamente sem movimentação regular de contêineres. A Mada Araújo assumiu temporariamente os berços 1 e 2, mas não estabeleceu operação regular. Posteriormente, os direitos foram transferidos para a JBS Terminais, com autorização da Antaq.
Foi com a JBS que a retomada ganhou escala. A empresa investiu na estrutura, colocou o terminal em operação, negociou com armadores e recebeu linhas marítimas.
Por isso, os elevados percentuais de crescimento divulgados posteriormente precisam ser contextualizados: Itajaí partia de uma base muito baixa após o período de paralisação.
O prejuízo já chegou
Enquanto a movimentação se recuperava, reapareceu uma fragilidade histórica: a perda de profundidade no acesso aquaviário e em áreas operacionais.
As consequências já são concretas. Cargas deixaram de embarcar nos volumes programados e houve omissão de escala. Portanto, não se trata apenas de ameaça: já existe prejuízo operacional e econômico.
Quando um navio reduz carga ou deixa de escalar o complexo, o impacto ultrapassa os terminais. A atividade portuária movimenta transportadoras, operadores logísticos, despachantes, agentes marítimos, fornecedores, prestadores de serviços e trabalhadores de Itajaí, Navegantes e região.
Há ainda um risco estratégico: perder previsibilidade diante dos armadores. Se uma companhia não tem segurança de que poderá entrar, operar e sair dentro da programação, outros portos tornam-se alternativas.
Perder uma escala significa também perder parte da atividade econômica gerada por ela.
Um problema conhecido
Itajaí está na foz do Rio Itajaí-Açu e recebe sedimentos transportados pela bacia hidrográfica. Chuvas e aumento da vazão podem intensificar o assoreamento. Dragagem, portanto, é uma necessidade permanente.
A questão que surge é inevitável: se o problema é conhecido e recorrente, houve planejamento suficiente para impedir que voltasse a comprometer as operações?
Também merece explicação o pedido da administração portuária para interromper o processo de concessão do canal à iniciativa privada, enquanto o complexo enfrenta justamente dificuldades relacionadas ao acesso aquaviário. A Antaq decidiu manter o processo.
É legítimo discutir custos, tarifas e condições da concessão. Mas quem rejeita esse modelo precisa responder qual alternativa garantirá permanentemente dragagem, profundidade e investimentos para o canal.
Retomado, sim. Salvo?
A partir daqui, a avaliação é editorial.
A retomada aconteceu e deve ser reconhecida. Foi resultado da participação de agentes públicos e privados. Transformá-la em patrimônio eleitoral exclusivo de qualquer grupo político simplifica uma recuperação construída por vários atores.
Mas a situação atual demonstra que movimentar contêineres novamente não significa ter solucionado os problemas estruturais do porto.
Salvar um porto não é apenas trazer os navios de volta. É garantir condições para que continuem vindo.
O Porto de Itajaí foi retomado. Diante dos prejuízos atuais e das questões ainda sem solução definitiva, dizer que foi “salvo” é outra história.