terça, 29 de setembro de 2020
22/11/2019 07:52

Uma nova esperança para as relações comerciais entre o Brasil e Argentina

Com o fortalecimento das relações entre os dois países a relação comercial de Santa Catarina com o país vizinho tende a melhorar, uma vez que a corrente de comércio do Estado com a Argentina retraiu durante o governo Macri

A vitória da oposição nas eleições presidenciais argentinas, com a escolha do peronista Alberto Fernández, deve impactar significativamente na corrente de comércio do Brasil com o país vizinho. Isso porque a grave crise que atingiu o país de Maradona no governo Macri não poupou o Brasil, que tem na Argentina o principal mercado dos produtos manufaturados brasileiros e o terceiro destino das exportações brasileiras como um todo até 2018, atrás apenas da China e Estados Unidos. Porém, o clima é de apreensão porque o novo governo que assumiu em 10 de novembro terá que cortar gastos públicos ao mesmo tempo que tem uma demanda crescente de recursos para atender os mais pobres.

A retração da economia do vizinho teve impacto direto na produção industrial do Brasil, especialmente no setor automotivo, que exportou 18% menos veículos no ano passado na comparação com 2017. No entanto, um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), mostra que há ainda uma série de efeitos menos visíveis. Isso porque os bens intermediários respondem por mais da metade das exportações do Brasil à Argentina. São partes e peças que vão ser incorporadas à cadeia de produção argentina.

Considerando todos esses efeitos, o estudo do Ibre-FGV mostra que a retração da economia argentina tirou 0,2 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2018, ou seja, sem o “efeito Argentina”, a economia do Brasil teria avançado 1,3%, em vez de 1,1%. E o impacto pode ser ainda pior neste ano, de 0,5 ponto percentual, de acordo com as estimativas. Cenário que tende a mudar em 2020, porque Alberto Fernández e Cristina Kirchner prometem dar uma guinada na política instituída pelo presidente Mauricio Macri.

Santa Catarina deve sentir impacto

A Argentina é o único país vizinho de Santa Catarina e quarto maior parceiro comercial do Estado. Em 2018, SC exportou para a Argentina US$ 544,5 milhões, com uma retração de 7% frente ao ano anterior. Neste ano, de janeiro a setembro, as vendas somaram US$ 324,3 milhões, com retração de 22% comparativamente ao período de 2018. O país dos “hermanos” passou a responder por 4,8% das vendas externas do Estado, e caiu da terceira para a quarta posição, atrás dos Estados Unidos, China e Japão.

No entanto, as importações argentinas para SC de janeiro a setembro cresceram 10%, impulsionadas pelas compras de carros. “Nas exportações, o produto mais vendido pelo Estado aos vizinhos é papel kraft, que enfrenta retração de 21%. As vendas do Brasil à Argentina, até setembro deste ano, recuaram 38,96%”, diz o economista do Observatório da Indústria de SC, da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Henrique Reichert.

A economista e presidente da Câmara de Comércio Exterior da Fiesc, Maria Teresa Bustamante [uma das maiores especialistas do Brasil em negociações internacionais e comércio exterior] torce para uma virada na economia argentina. Porém, vê ainda o quadro com cautela. “Ainda não há um programa de governo conhecido e enquanto não for revelado um plano de ação imediato e mais amplo, temos que acompanhar as decisões com cautela. As empresas ainda não sabem qual será o rumo”, explica a especialista.

Maria Tereza concorda com os otimistas e diz que há expectativa de um cenário positivo com a mudança de governo. “Mas precisamos de um plano de ação de curto, médio e longo prazo para a economia. Ele precisa mostrar como ficarão as dívidas com o FMI, as reservas internacionais, que tipo de medida vão tomar na relação intramercosul com o Brasil. O Mercosul continua as negociações de acordos internacionais com a União Europeia, Coreia do Sul e países nórdicos. É preciso ver como ficará a agenda econômica.”

A economista diz ainda que o governo brasileiro deve deixar as críticas de lado ao Mercosul e negociar com os países do bloco porque juntos, todos serão fortalecidos economicamente. “Há uma necessidade recíproca de bom relacionamento dos governos porque Brasil e Argentina são países vizinhos, são sócios do Mercosul e, historicamente, ambos mostraram que a melhor forma de agir é ter relação construtiva. A área diplomática precisa trabalhar isso”, diz Maria Tereza. Ela destaca ainda que estão em fase avançada as negociações do Mercosul para três acordos: com a União Europeia; com o Canadá, Coreia do Sul e Cingapura; e com os países do Efta, bloco que reúne a Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein.

 




Últimas Notícias

Notícias

© Copyright 2000-2014 Editora Bittencourt