segunda, 17 de fevereiro de 2020
31/05/2017

Desabafo


Complexo do Itajaí - A história sem fim

 

Alexandre Gonçalves da Rocha

 

Sou prático do Porto de Itajaí desde 1998 e, de Navegantes, desde 2007. Período em que vi muita coisa que podia ter sido e não foi. E vi também um bocado de coisas que viraram realidade, quando a maioria já não contava com o sucesso. Vi ainda histórias sem fim. A história da adoção de um sistema que nos permita obter informações sobre ventos, correntes e ondas, tem é uma delas.

Pelo menos desde 2007 tenho batalhado para que o porto conte com equipamentos que nos permitam aprender mais sobre o ambiente no qual ganho (e arrisco) minha vida. Durante quase uma década, esperei, como a maioria de nós costuma esperar. Mas em 2016, a espera precisou terminar.

Navios maiores, bocas maiores, margens de segurança menores, mas a mesma fonte de informação de sempre: avaliação por estima visual, por percepção. Isso funcionou muito bem por décadas e funcionará bem ainda para muitos navios. No entanto, não será eficiente para esta nova geração de porta-contêineres que passa a um metro do fundo do rio e a trinta metros do talude do canal e da mureta do cais. Operações com navios com estas especificações necessitam de maior precisão, maior acurácia. A segurança e a eficiência do transporte marítimo em águas restritas depende de se aceitar isso e de se fazer algo a respeito.

Fizemos, afinal. Entramos numa espécie de consórcio com APM Terminals Itajaí e Portonave para que o Complexo Portuário do Itajaí pudesse contar com equipamentos e sistemas, inclusive de previsão, com os quais poderemos reduzir o tempo de espera dos navios e proteger o porto, os navios, as cidades e as pessoas tão bem quanto hoje, e até melhor.

Ao longo do segundo semestre daquele ano tivemos reuniões e mais reuniões. Boa parte delas na sede da Autoridade Portuária e com a presença dela. A situação jurídica e financeira da Superintendência do Porto de Itajaí tornaria o processo muito demorado caso ela o liderasse. Por isto, concluímos que ela participaria apenas como anuente.

Algumas reuniões e minutas depois, tudo pronto para o contrato ser assinado em 15 de maio deste ano. Faltava apenas a anuência da Superintendência do Porto de Itajaí. Faltava, não, falta. E nada da autarquia “sisplicar” sobre as razões da tardança. Entendo que hesitem, entendo que possam ter mudado de ideia. Se é isso, que digam logo para que possamos encontrar uma saída. Para que o projeto possa ter continuidade.

Itajaí e Navegantes são portos restritos. Os limites operacionais atuais refletem isto, bem como o fato de que nós não sabemos o que precisamos saber sobre o ambiente em que nos movemos para mudar aqueles limites, sem criar mais riscos do que os que já corremos. Não dá para fazer isso estimando corrente com deriva de lancha. Não dá para mudar o cenário presente quando se depende de informação de vento vinda do navio.

Imaginem vocês se o aeroporto de Navegantes dependesse apenas de informação dos aviões para decidir a pista a ser usada… “Ah, mas aviação é diferente, envolve vidas a bordo!” Não discordo nem um pouco. Apenas digo, leitor (não para contrariá-lo, mas para que você compreenda meu lado), que as decisões que tomamos aqui sobre transporte marítimo também afetam vidas.

Se é verdade que o impacto de um erro não é, de ordinário, tão definitivo, ele é inegável e pode ser duradouro. Ainda sofremos os efeitos da cheia de 2008. A obra do berço 4 do Porto de Itajaí também está parada por conta de escombros das enchentes de 1983 e 1984. Tudo isso retarda, amesquinha ou destrói futuros melhores para muita gente.

Eu não estou disposto a esperar mais, porque acredito que o custo de esperar já é maior do que o custo de fazer algo há um bom tempo. E a tendência é só aumentar. Então, eu vou à luta. Esta história precisa ter fim. Que seja um final feliz para o interesse público.

O autor é presidente da empresa Itajaí & Navegantes Pilots, responsável pelas operações de praticagem no Complexo Portuário do Itajaí.

 



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